Sedã sueco tem motor diesel e é um automóvel confortável, bonito e agradável. Ele só está esperando um transplante de coração

Desde que comecei a escrever sobre carros, pessoas com o poder de persuasão de um político em campanha têm ponderado por que alguém ia querer comprar um carro capaz de andar a mais de 120 km/h.

Essa é a principal razão pela qual Margaret Thatcher conseguiu derrotar a greve dos mineradores britânicos. Eles estavam tão imbuídos da ideia de que velocidade era uma coisa dos ricos que eles intencionalmente usavam vários Citroën 2CV, o que lhes fazia chegarem ao local do confronto depois que a última van da polícia estava fechando suas portas e voltando para Londres.

Naquela época, o cidadão comum podia dirigir na velocidade que quisesse, porque não havia câmeras e a polícia nunca os pegaria, já que a maioria do efetivo estava ocupada buscando o líder dos grevistas.

Mas hoje as coisas são diferentes. Há fiscalização eletrônica por todo lado. Se eu dirigir do meu apartamento em Londres para o aeroporto, sou monitorado por câmeras que registram a velocidade média a cada centímetro do percurso.

Eu poderia escolher, se vivesse em um país sensato, ultrapassar o limite e pagar uma taxa sobre o excesso de velocidade. Mas o governo pôs na cabeça que excesso de velocidade é um tipo de crime, e como resultado recebo pontos na carteira de motorista e enfrento o risco de passar um tempo na cadeia.

E não é apenas na Grã-Bretanha. Está acontecendo na Europa. Como resultado dessa guerra idiota contra a velocidade em todo o continente, temo que hoje, quando me perguntam por que alguém compraria um carro que passe de 120 km/h, eu tenho de admitir que provavelmente não faz muito sentido mesmo.

O que me leva aos carros grandes da BMW, Mercedes ou Jaguar. Todos são construídos para apresentar perfeita estabilidade enquanto você faz uma adorável sequência de curvas em uma agradável rodovia ensolarada a 200 km/h. O que significa que você está pagando milhares de libras por uma coisa que só pode fazer se estiver preparado para passar os seis meses seguintes em uma cela.

E isso me leva ao carro que você vê aqui, o Volvo S90. A Volvo anunciou que a partir de 2020 ninguém precisará morrer dirigindo um dos seus modelos. É isso mesmo. Se tiver câncer, malária cerebral ou meningite, é só entrar num Volvo e você viverá para sempre. E não se preocupe se estiver dirigindo e sofrer um acidente, porque o outro grande anúncio é que, no futuro, nenhum motor da Volvo terá mais do que quatro cilindros. Por isso, você nunca andará rápido o suficiente para se ferir a ponto de morrer.

Para enfatizar a questão, o S90 não está à venda no Reino Unido com motor a gasolina, só a diesel. O que é obviamente um erro terrível, pois o governo meteu na cabeça que pessoas que dirigem carros a diesel são assassinos em massa e, por isso, têm de pagar 500 libras (R$ 2.150) por minuto cada vez que quiserem ir até o mercado comprar um litro de leite. E nem é um motor a diesel muito bom. É barulhento como um barco de passageiros em marcha lenta e tem menos força que os Liberais Democratas britânicos. 

Naturalmente, a Volvo logo terá de revisar sua decisão “apenas a diesel”. Existe uma versão híbrida gasolina-elétrica no forno, que fará valer a pena considerar o S90, pois ele é um belo carro para se usar nestes dias de velocidade controlada.

Dirigibilidade? Não tenho ideia. Não importa. A sensação que a direção passa? Irrelevante. Tudo o que posso dizer é que, quando você vira o volante, o carro faz a curva. A tração apenas dianteira é uma desvantagem? Na velocidade em que vai dirigir o carro, você nunca notará. 

O que eu posso dizer é que a suspensão é boa. Ele é muito confortável. E é grande do lado de fora. Quase grande demais. Mas não tem problema, porque o tamanho se traduz em hectares de espaço interno. E espaço cheio de luz e ar, graças a materiais escolhidos com inteligência. 

Sentar em um BMW ou Mercedes é como estar dentro da nécessaire de um homem elegante. É tudo couro e faixas e bolsos secretos para camisinhas e outras coisas. Sentar em um S90 é como estar em um campo. É provavelmente o melhor interior de qualquer carro com grande volume de produção à venda hoje em dia.

Uma das razões é que quase tudo é controlado a partir de uma generosa tela tipo iPad. Em geral, esse tipo de tecnologia me deixa confuso, mas após apenas dois dias eu estava mexendo nela sem precisar tirar meus olhos da estrada por mais de alguns minutos.

E isso não é problema, porque o S90 é equipado com todo tipo de direção por radar e satélite, para garantir que você não saia da sua faixa nem bata no carro à frente. E mesmo que tudo isso falhe quando você tiver ido para o banco de trás tirar uma soneca, continua tudo bem, porque o miserável motor a diesel assegura que você vai estar a apenas 3 km/h quando atingir a mureta da ponte. Você provavelmente vai apenas resmungar um pouquinho, virar para o outro lado e voltar a dormir.

Outra coisa boa de dirigir um S90 é que ele faz você se sentir um pouco mais adulto que o Mercedes Bruto ou o BMW Lince. É um carro para o homem ou a mulher autoconfiante, que aceita sua idade e os efeitos da passagem do tempo sobre sua aparência. Ninguém que compra um carro desses – sedã ou perua – fará um clareamento de dentes, lipoaspiração ou colocará silicone nos seios. 

Obviamente, você não deve comprar um agora. Seu motor a diesel é nojento e, por causa de todas as propostas do governo britânico para taxar aquilo que foi rotulado de combustível de Satanás, o S90 terá um valor de revenda de cerca de zero após dois dias fora da concessionária. Mas vale a pena esperar que a Volvo lance o híbrido e comece a oferecer opções com motor a gasolina. Porque esse é um carro agradável, bonito, confortável, que está apenas esperando um transplante de coração.

Fonte: Quatro Rodas

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Publicada em 05/12/2017 - 11:08

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